22 de ago. de 2011

A Consciência é Universal?

Se a consciência individual existisse independentemente da consciência universal, a religião então não teria significado e o misticismo estaria sem uma premissa viável. A consciência no homem é um estado de percepção, uma compreensão de vários fenômenos. Por ela, o homem passa a perceber aspectos da exterioridade como o mundo exterior. De igual modo, ele torna-se sabedor de sua própria existência, isto é, consciente de si mesmo. Todas as religiões, mesmo as chamadas pagãs, tem um sistema teológico pelo qual ensina-se o homem a comungar com seu conceito de Deus. Qualquer religião digna do homem tem recurso à oração. Esta oração é uma tentativa de comunicação entre o homem e seu Deus, ou deuses.

Por conseguinte, há o corolário de que o homem pode tornar-se cônscio daquele poder transcendental ao qual apela. Tal compreensão, obviamente, requer uma consciência. Há, portanto, uma mescla, um estado de unidade entre a consciência humana e aquele tipo de consciência que o homem atribui ao Ser Divino.

Examinemos agora a questão estritamente do ponto de vista místico. Em poucas palavras, o místico é aquele que aspira a uma união pessoal, ou unidade, com o Absoluto. Este Absoluto ele pode chamar de Deus, Cósmico, Mente Universal, Ser Supremo, etc. O auge da realização mística é a Consciência Cósmica. Se  transpusermos as duas palavras para consciência do Cósmico, teremos então uma compreensão melhor do termo. Simplesmente, ele consiste de o homem ter uma consciência do Cósmico, o UM de que toda realidade consiste.

Não é como se um estado ou condição, separado, estivesse entrando em contato com outro de natureza diferente. Não é uma sincrasia, uma mistura de coisas diferentes. A consciência no homem, embora seja de um estágio de  apreensão inferior é parte da consciência existente por toda parte. Mas as freqüências ou faixas diferentes de manifestação tem de ser postas em harmonia entre si. A consciência humana evolui para o alto de modo a ser capaz de perceber o UM, que é igualmente uma consciência. O místico afirma que todo o cosmo tem um estado de consciência de sua própria natureza. Para o homem, perceber que existe tal relação com ele é o mais alto senso de perfeição que o ser humano pode experimentar.

É bastante compreensível que o homem acredite, com mais freqüência, que sua consciência é um estado separado e independente. Ele não consegue perceber o fator unificador que existe por toda a vida e, na verdade, por todo o cosmo. Toda célula viva, seja de uma planta ou animal, tem consciência. Esta consciência é apenas separada na maneira particular como se expressa através do organismo ou através da própria planta. Mas, basicamente, as células num corpo humano tem funções semelhantes às das que existem nas outras formas.

Falamos, hoje em dia, de diferentes estados conscientes dentro do homem, tais como o objetivo, subjetivo e subconsciente, com as variações teóricas do ultimo. Contudo, não pensamos nesses estados de consciência como sendo separados dentro de nós, porém, mais propriamente, como sendo níveis ou oitavas do mesmo fluxo de consciência que nos percorre.

Como é exatamente a consciência universal? Ela não tem qualidades determinativas definidas. Como todas as coisas são manifestação da consciência universal, então, como disse o filósofo holandês Spinoza sobre o Absoluto, “está em todas as coisas mas não está em nenhuma delas”. Ademais, todas as coisas não são a totalidade da consciência universal porque ela tem o potencial de infinitas outras manifestações.

Ignoramos por completo outros mundos que existem no numero infinito de galáxias ou outros universos do cosmo, que podem ter manifestações da consciência universal, as quais não podemos sequer conceber. Por conseguinte, a consciência universal é amorfa ou, como disse Heráclito, ‘está sempre vindo a ser’.

A ciência pode rejeitar a hipótese de que todas as coisas tem consciência; em outras palavras, que a consciência está em toda realidade. Mas isto, porém, depende das limitações que  damos às características de consciência. A física e a química, por exemplo, nos mostraram que a estrutura da matéria obedece ao que em geral se declara ser uma espécie de ordem natural. Esta ordem é tão precisa que a consideramos universal. Na verdade, a exploração  espacial desta época descobriu que existem elementos químicos em mundos distantes, conforme revelados pelo espectrógrafo, que tem as mesmas características de comprimento de onda dos encontrados na Terra. Também temos amostras do solo da Lua e de Marte. Não poderemos dizer que essa ordem, essa precisão persistente, é uma espécie de consciência? Reconhecidamente, ela difere em suas manifestações da consciência humana. Mas, por outro lado, também temos diferentes estados de consciência.

Lembramo-nos da filosofia dos antigos Estóicos, fundada por Zeno 340-265 a.C]. Os estóicos sustentavam que nem matéria, lama ou homem eram coisas separadas, e sim parte de um todo unificado que pode ser chamado de Deus ou Natureza. Uma alma universal ou principio racional, ou seja, mente, está presente por toda parte. No momento, é o que chamamos alma, diziam os Estóicos. Na matéria, são as leis naturais pelas quais ela se manifesta.

Isto, é claro, é tecnicamente chamado de panteísmo místico ou, nomeadamente, Deus, ou a Mente Cósmica, que tudo penetra. O teísta ortodoxo e o chamado fundamentalista bíblico, naturalmente, rejeitarão esta idéia. Ele deseja, como acontece com muitos dos que chama de pagãos, personalizar seu Deus, fazer Dele um ser de forma. Ele acha que encarnar a existência de Deus em todas as coisas, como o panteísta faz, é uma espécie de idolatria. Mas, ao supor isto, ele revela sua incompreensão do panteísmo místico. O verdadeiro panteísta neste sentido nem adora nem venera qualquer objeto como deidade. Mais propriamente, ele sabe que o principio cósmico é infinito em essência e subsistente e, portanto, nenhuma coisa ou todas as coisas poderiam ser ele. Mas ele afirma que nada do que existe poderia existir sem a ordem inerente de Deus ou Mente Cósmica.
-
R.M.L._F.R.C

São o Bem e o Mal Absolutos?

As concepções e dogmas teológicos da maioria das religiões criam certos padrões de  comportamento que sugerem a existência de um bem e um mal absolutos. Esses padrões ou códigos são, porém, bastante pertinentes à referência e à concepção humanas.

A concepção de bem é basicamente psicológica. Ela está relacionada à avaliação da experiência pessoal. Chamamos de bem tudo o que produz prazer e sensações gratificantes. Aquilo que nos favorece física, mental e psiquicamente, chamamos de bem.

O chamado bem moral é uma satisfação emocional e intelectual. Uma pessoa, por razões religiosas ou outras, cria um código de comportamento que julga necessário para seu bem-estar moral ou espiritual. Como a conduta exigida é o cumprimento do preceito moral, ela é intelectual e emocionalmente satisfatória e, por conseguinte, aceita como bem.

Tal estado ou qualidade positiva como bem cria sua antítese, sua condição contra, que é chamada de mal. Em termos simples o mal é aquilo que cria o oposto do prazer para o ser humano. O desagradável, o prejudicial são, assim, mal. Cada bem, quando assume uma qualidade positiva na mente do homem, também cria uma concepção inversa, tal como a luz sugere seu próprio contrário, as trevas.

Há porém variações desta concepção absoluta do bem. Essas variações encontram-se principalmente nas categorias de moral e ética. Todos estão familiarizados com o fato de que mesmo nas seitas cristãs existem diversas interpretações de conduta humana em termos de bem e mal. Uma seita fundamentalista declarará como mal aquilo que outra mais liberal não considera assim. Certas seitas protestantes invectivam contra a dança como mal. Por outro lado, a Igreja católica não a considera assim. As seitas não-cristãs aceitam muitos atos dentro do âmbito de seu código moral que os cristãos rejeitam como mal ou que contribuem para o mal.

Portanto, bem e mal são concepções humanas; são produtos da mente humana. Eles não tem existência fora da avaliação humana de acontecimentos e circunstancias relacionadas com o homem. O homem pode, arbitrariamente, estabelecer certas condições que são universalmente censuráveis para a humanidade e, daí por diante, declará-las absolutas. Assim, por exemplo, ele pode declarar que o assassinato, estupro e roubo são mal porque pode certificar-se que tais atos só trazem danos para a humanidade. Ele poderia, igualmente, declarar virtudes como caridade, tolerância e sinceridade como sendo um bem universal e absoluto para a humanidade. Mas, também aqui, o ponto de referencia nessas coisas é o próprio homem. Elas são boas ou más somente conforme o homem reage a elas. Sem sua resposta a tais atos, eles não teriam nenhum conteúdo qualitativo.

Misticamente, só pode haver um bem e este é a inclinação moral, o impulso da retidão, que o homem experimenta dentro de si mesmo.

Todo mal é relativo a padrões aceitos. Em outras palavras, não há na Natureza nenhum mal absoluto; isto é, ele não é universal. Naturalmente, esta declaração é contrária aos ditames morais delineados nos vários livros sagrados das diferentes seitas religiosas. Se há censuras e proscrições contra certos atos nas obras religiosas ou nas leis e costumes da sociedade, estas então tornam-se os critérios pelos quais o individuo mediano determina o que é bem ou mal.

Na verdade, em grande parte, o que chamamos de consciência em sua manifestação ou expressão externa, baseia-se na influencia daqueles atos ou tipos de comportamento que nos ensinaram a considerar como mal. A consciência, ou o senso moral, é um impulso subconsciente para conformar com um estado interior de retidão que o homem possui. Mas a definição daquilo que retidão ou bem deveria consistir, é criado objetivamente pelo individuo e surge das suas experiências e treinamento pessoais.

Se os detalhes de consciência fossem alcançados de modo universal e não individualmente, então todo comportamento humano conformaria com o mesmo padrão de bem e rejeitaria igualmente todo o mal aparente. Toda pessoa que já viajou muito pelo mundo conheceu povos cujos padrões de conduta adequada e aceita são mal considerados pelo visitante. O visitante ou viajante está simplesmente medindo o que essa gente faz pelo seu próprio código pessoal.

Se pensarmos abstratamente sobre o assunto do mal, ele não pode existir na realidade; tampouco o bem pode existir no cosmo. O cosmo – e todos os seus fenômenos – é o que é. O cosmo não se está esforçando para atingir alguma finalidade idealista que transcende seu estado particular em um determinado momento. Por conseguinte, tudo não é nem bom nem mau: Não existe padrão externo pelo qual se possa julgar o cosmo. Tais padrões são apenas recursos de que o homem lança mão.

Há uma distinção, embora exista uma relação entre o que chamamos de mal e errado. A palavra mal é associada à moralidade. Significa aquilo que é contrário a algum edito ou ordem dada nos textos sagrados ou na teologia de determinada seita. O bem moral é aquele que está associado com a consciência e é coerente com o padrão moral que a consciência aceita. O bem moral é geralmente concebido como sendo aquele comportamento que conforma com a vontade de um ser sobrenatural como um deus, ou principio divino. Tudo o que é contrário a ele é, portanto, aquilo que se proclama ser mal.

Por outro lado, o errado não é diretamente baixeza moral. Não é estabelecido basicamente por qualquer código religioso. Errado e certo são principalmente resultado de uma interpretação ética. Eles não são comumente considerados como sendo variações de ordens espirituais, e sim de relações ou comportamento social impróprio por parte do individuo. Por exemplo, é eticamente errado uma agencia de publicidade representar dois clientes competitivos por que ela não pode então fazer justiça a nenhum dos dois em suas afirmações.  Também é eticamente errado discriminar entre dois homens devido a sua raça.

Contudo, notaremos que, em muitos códigos de ética por elas adotados, geralmente as empresas e sociedades revertem, em principio, aos padrões morais. Por exemplo, em geral se aceita a deturpação de um produto que está sendo vendido, isto é, quanto a sua qualidade, é falta de ética. Tal conduta é fraude e, portanto, mentira, o que é também uma interdição moral.

Uma sociedade estabelece certas regras de conduta baseadas no código moral que a maioria de seus cidadãos adotou. Em termos simples, os valores morais de uma nação cristã são fundamentalmente baseados nos ditames morais do cristianismo. Considera-se que as pessoas que conformam com elas estão vivendo em retidão, isto é, uma vida moralmente boa; e os que agem contrários a elas, são então julgados culpados em graus de mal.

Quando vemos uma pessoa que se desvia de tal padrão, consideramo-la como sendo má. Não obstante, seu mal não é absoluto no sentido cósmico. Pense em todos aqueles seres humanos que foram queimados na fogueira pela Igreja durante a Idade Média e durante a Inquisição – condenados como maus porque suas ideais pessoais não conformavam com o dogma despótico da Igreja!

O mal, portanto, não é intrínseco e sim relativo às crenças e circunstancias pelas quais julgamos o comportamento humano. É, contudo, necessário que alguns atos do homem sejam restritos de acordo com as razões que a sociedade crê serem essenciais ao seu bem-estar. O tempo sempre foi o grande alquimista na transmutação das qualidades de bem e mal em novas formas de aceitação ou rejeição por parte do homem.  
_
R.M.L_F.R.C